segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Hoje de manhã






Hoje de Manhã Saí Muito Cedo


Hoje de manhã saí muito cedo, 
Por ter acordado ainda mais cedo 
E não ter nada que quisesse fazer... 

Não sabia por caminho tomar 
Mas o vento soprava forte, varria para um lado, 
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas. 

Assim tem sido sempre a minha vida, e 
assim quero que possa ser sempre — 
Vou onde o vento me leva e não me 
Sinto pensar. 

Alberto Caeiro

domingo, 19 de novembro de 2017

Finalmente outono II


Já tinha desesperado de ver as árvores vestidas de outono. Fui várias vezes ao Botânico, andei no parque da cidade, passava pelas ruas que habitualmente ostentam as cores maravilhosas e quentes desta estação e... nada.
Esta semana, parece que passou por aqui uma fada e a juntar ao tempo estival, temperaturas amenas e falta de chuva, veio o outono finalmente.


O jardim Botânico às 5 da tarde, com o sol já a por-se , mas a iluminar as copas das árvores e a permitir contrastes sol-sombra mais agressivos, oferecia um espectáculo inolvidável. 

Julguei estar no Brasil ou na Madeira, um lugar exótico, tal a profusão de cores e a beleza das espécies que fazem deste jardim algo muito especial.
  




Sophia de Mello Breyner escreveu uma carta ao seu querido Primo Rúben Andersen Leitão, vulgo Ruben A., na ocasião da sua morte, que fala desta casa e deste jardim. Eles melhores que ninguém saberiam apreciar estas cores e momentos.

Aqui fica a carta com as fotos que hoje tive a sorte de tirar. Também fica a música maravilhosa do islandês Olafur Arnalds, uma peça que considero genial.



Carta a Ruben A.

Que tenhas morrido é ainda uma notícia
Desencontrada e longínqua e não a entendo bem
Quando — pela última vez — bateste à porta da casa e te sentaste à mesa
Trazias contigo como sempre alvoroço e início
Tudo se passou em planos e projectos
E ninguém poderia pensar em despedida
Mas sempre trouxeste contigo o desconexo
De um viver que nos funda e nos renega
— Poderei procurar o reencontro verso a verso
E buscar — como oferta — a infância antiga
A casa enorme vermelha e desmedida
Com seus átrios de pasmo e ressonância
O mundo dos adultos nos cercava
E dos jardins subia a transbordância
De rododendros délias e camélias
De frutos roseirais musgos e tílias
As tílias eram como catedrais
Percorridas por brisas vagabundas
As rosas eram vermelhas e profundas
E o mar quebrava ao longe entre os pinhais
Morangos e muguet e cerejeiras
Enormes ramos batendo nas janelas
Havia o vaguear tardes inteiras
E a mão roçando pelas folhas de heras
Havia o ar brilhante e perfumado
Saturado de apelos e de esperas
Desgarrada era a voz das primaveras
Buscarei como oferta a infância antiga
Que mesmo tão distante e tão perdida
Guarda em si a semente que renasce


Junho de 1976
in O Nome das Coisas, 1977

sábado, 18 de novembro de 2017

Finalmente outono

colagem de fotografias tiradas da minha varanda


QUANDO

QUANDO O MEU CORPO APODRECER E EU FOR MORTA
CONTINUARÁ O JARDIM, O CÉU E O MAR,
E COMO HOJE IGUALMENTE HÁO-DE BAILAR
AS QUATRO ESTAÇÕES À MINHA PORTA.

SERÁ O MESMO BRILHO, A MESMA FESTA,
SERÁ O MESMO JARDIM À MINHA PORTA,
E OS CABELOS DOIRADOS DA FLORESTA,
COMO SE EU NÃO ESTIVESSE MORTA.




SOPHIA DE MELLO BREYNER

domingo, 5 de novembro de 2017

Waiting for the rain


You will say that everybody has seen landscapes and figures from childhood on. The question is: has everybody also been reflective as a child, has everybody who has seen them loved also heath, fields, meadows, woods, and the snow and the rain and the storm? Not everybody has done that like you and I, it is a peculiar kind of surroundings and circumstances that must contribute to it, it is a peculiar kind of temperament and character too, which must help to make it take root . . .  

Van Gogh, Vincent.  / letters

sábado, 21 de outubro de 2017





Estou com uma menina pequena diante do mar bravíssimo, louco, enfurecido, a ouvir este estrondo e o fantástico cantor Benjamin Clementine.

A vida é assim, sou feliz por tudo. 
Liberdade acima de tudo, nenhumas amarras, faço o que quero, vivo intensamente o dia... até quando?.. 

Este cheiro da maresia, as areias que sobem até aqui, a espuma  branca resplandecente, tudo isto sou eu neste momento.  A Natureza é única e há que amá-lá até ao infinito.

Não há nada mais perto de mim que este mar louco.
Estou em êxtase...






 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

They will survive

A Floresta vai ser verde de novo.

E tudo voltará a encantar-nos. Ela resiste à guerra dos homens.



Pintei este quadro há dias, ainda não tinha havido os incêndios de domingo. E penso como Alberto Caeiro, o poeta da Natureza:

O mistério das cousas? 
Sei lá o que é mistério! 
O único mistério é haver quem pense no mistério. 
Quem está ao sol e fecha os olhos, 
Começa a não saber o que é o sol 
E a pensar muitas cousas cheias de calor. 

Mas abre os olhos e vê o sol, E já não pode pensar em nada, 
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos 
De todos os filósofos e de todos os poetas. 
A luz do sol não sabe o que faz 
E por isso não erra e é comum e boa. 

Metafísica? 
Que metafísica têm aquelas árvores? 
A de serem verdes e copadas e de terem ramos 
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar, 
A nós, que não sabemos dar por elas. 
Mas que melhor metafísica que a delas, 
Que é a de não saber para que vivem 
Nem saber que o não sabem?


Oiçam esta maravilha.

domingo, 15 de outubro de 2017

Gaudi



Tenho pensado bastante nos Catalães e na frustração que devem sentir neste momento. Sem saída. Desiludidos, impedidos de sonhar o impossível. É o que dá o idealismo desmesurado.

Nunca estive em Barcelona, mas parece que conheço a cidade toda. Os meus filhos estiveram lá todos, li livros e revistas sobre a região e muita coisa sobre Gaudi.

Ir lá é um dos meus sonhos e espero que seja possível. A arquitectura da Sagrada Familia fascina-me.


Na Wiki encontrei esta informação sobre o album Gaudi, o último dos Alan Parson's Project, dedicado ao grande arquitecto,  album esse que, em tempos comprei em vinyl e continuo a ouvir agora no Spotify.
É fascinante, música e letra extraordinárias, algumas mesmo sublimes.


Sempre ouvi esta banda com prazer. A primeira vez que os ouvi foi num ginásio em frente à minha casa, chamado Jump, que frequentei nos anos 80. Fazíamos ginástica de manutenção ao som desta banda e dos Dire Straits, que, depois, se tornaram ídolos dos meus filhos. Muitas vezes os ouvi nas aulas com os meus alunos também.

Gaudi is the tenth album by The Alan Parsons Project, released in 1987. Gaudi refers to Antoni Gaudí, the Catalan Spanish architect, and the opening track references what is probably his best known building, la Sagrada Famíliamusical with the same name based on the songs of this album was released in 1993 in Germany with the songs sung in English.This was the final Alan Parsons Project studio album. 
                                             "Closer To Heaven"                             
Rising and falling lighter than air
Silently calling no one is there
Oh, bird that is flying so high and
so free
Closer to heaven than you and me

Voices of strangers keep me from
sleep
Guardian angels watch over the
deep
A ship that is sailing way out to
the sea
Closer to heaven than you and me

Visions of rain fall out of blue
skies
Rivers of tears flow out of dry
eyes
Answer my question tell me no
lies
Is this the real world or a fool's
paradise?

Wind that is blowing so wild and
so free
Closer to heaven than you and me

Closer to heaven longing to be
Closer to heaven than you and me

Visions of rain fall out of blue
skies
Rivers of tears flow out of dry
eyes
Answer my question tell me no
lies
Is this the real world or a fool's
paradise?

Love that lies sleeping wakes in
the night
Secrets for keeping that won't
see the light
I look to the future and I hope it
will be
Closer to heaven than you and me

Closer to heaven longing to be
Closer to heaven than you and me

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

As histórias da Avó

Não resisti a transcrever aqui um texto do blogue Notas de Chá, que todos os dias leio e cada vez aprecio mais. E porque a minha Avó, que faria para o ano 120 anos, me deixou uma recordação igual e inesquecível,


a minha Avó Virgínia

tomo a liberdade de usar as palavras de Miss Smile, a autora do blogue, agradecendo-lhe desde já a sua partilha.


Era uma voz


A minha avó era uma contadora de histórias nata. Em tom de brincadeira, costumava dizer que na cabeça lhe nasciam mais histórias do que cabelos. E, acreditem, a minha avó era dona de uma farta cabeleira. Nas noites quentes de verão, quando a lua dava sombra às suas histórias, ficávamos no jardim até tarde. A noite fazia crescer os campos, as flores e as árvores, e abria a minha imaginação. Numa época em que não havia ainda eletricidade naquela zona, a minha avó gostava de me contar histórias de pirilampos cujos sonhos só a noite – e ela, claro - conhecia. Ouvi-la era parar a contagem do tempo. Havia histórias de todos os tipos. As divertidas, como a do menino que todas as noites fazia chichi na cama até que o corpo se transformou numa nuvem de chuva, ou a da centopeia cleptomaníaca que, no inverno, roubava incansavelmente meias para os seus mil pés. Havia também as de terror - as histórias, por vezes, arrastam-nos para lugares perigosos, mas eu nunca dei parte de fraca - como a do cavaleiro sem cabeça que corria o mundo no seu cavalo negro, sem rumo e sem destino, para esquecer a amada que casara com outro. Havia as trágicas, como a da noiva que morrera no dia do casamento, fatalmente mordida por uma osga que se escondera no vestido durante a noite. Havia as mágicas, como a da macieira que dera nêsperas, ou como a do vento que soprara todos os dias do ano sem descanso, vergando as árvores e as costas das pessoas, que precisaram de um ano inteiro sem vento para ficar novamente com as costas direitas. Hoje sei que a minha avó inventava todas aquelas histórias à medida que as contava. Nas suas palavras, porém, havia sempre sinceridade. Sei que não as procurava, eram as histórias que vinham até ela. E nunca perdeu nenhuma, assim como nunca perdeu a voz, a doçura e os olhos bondosos. E porque eu acreditava em todas elas, as suas histórias levavam-me sempre muito longe. Creio que ela nunca soube a importância que as suas histórias tinham para mim. Talvez quem conta histórias não saiba bem o que está a fazer. Quando terminava, ficávamos as duas caladas, a aspirar o silêncio da história, o tempo suficiente para nos conhecermos uma à outra. Foi assim que fiquei a conhecer a minha avó. Por isso, todas as histórias, sobretudo as que nos contam na infância, não deviam começar por Era uma vez, mas 
sim, por Era uma voz. A voz de quem nos ama.