sexta-feira, 18 de agosto de 2017

De novo em férias



Já vim outra vez para a Luz.

Aqui está-se bem...é o paraíso.

Vou-me deixando embalar neste doce rimanço com os netos e filho, tudo calmo, tudo belo, tudo Zen.

Sou uma pessoa com sorte.


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Rimas?!


Não me Importo com as Rimas

Não me importo com as rimas. Raras vezes 
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra. 
Penso e escrevo como as flores têm cor 
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me 
Porque me falta a simplicidade divina 
De ser todo só o meu exterior 
Olho e comovo-me, 
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado, 
E a minha poesia é natural como o levantar-se vento... 



Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XIV" 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Floating II

O M. dizia que não podíamos ficar a "boiar" na vida.

Tínhamos de nadar contra a maré ou contra a corrente para poder chegar a terra firme.
Ria-se das minhas ilusões e idealismos e censurava o que ele considerava a minha "passividade".

Apesar de afirmar e escrever muitas vezes que eu lhe transmitia uma calma e paz que ele não encontrava em mais ninguém.



Tudo isto aconteceu quando nos namorávamos. Tentei, against all odds, provar-lhe que estava errado. Que não nascera para estar sentada, que era activa q.b., mas que precisava de momentos anti-stress, se não ia-me abaixo, não aguentava aquele ritmo infernal de Lisboa, casa enorme com família grande, viagens de autocarro de hora e meia para a faculdade, Instituto Alemão, catequese, explicações que dava a alunos fracos, etc. etc.
Estudando em Coimbra, ele não tinha a noção do que era estudar na capital. Mas quando vinha a Lisboa ficava derreado em dois dias :) .


Nos últimos anos da Faculdade, enquanto fazia a tese de licenciatura e as Pedagógicas - cinco cadeiras obrigatórias para quem queria leccionar - trabalhei num escritório das motos Honda e num lar de 3ª idade para expatriados. Mesmo assim consegui uma nota boa na tese, que defendi em 1971, e que. uns anos depois, foi abolida pelo governo socialista pós 25 de Abril. Entrei logo no mesmo ano em que a defendi para o estágio no melhor liceu de Lisboa - o Pedro Nunes - e no ano seguinte como professora agregada para o MªAmália, outro liceu excelente onde tinha andado. Não se pode dizer que me tivesse encostado à espera que o sucesso me caísse em cima. Tinha lutado muito para chegar ali. Sem ajudas nenhumas, pois a minha família não era propriamente encorajadora, pelo contrário. Tive de arcar com as despesas de livros e da tese propriamente dita do meu bolso. Não fui uma filha "grata" como alguns dos meus irmãos mais novos.

Anos depois, o M. reconheceu todo o meu esforço e capacidade de vencer na vida, testada a toda a hora, não só como Mãe, mas também como profissional. Censurava, então, veladamente a minha obsessão de dar o máximo, de pôr toda a energia ao serviço dos outros e de mim própria. Achava que eu "fazia demais".  Como ele o fizera sempre em Coimbra e continuava a fazer noutro domínio completamente diferente, a magistratura.

No Porto, comecei a trabalhar para a Editora aos 36 anos e colaborei em manuais escolares de Inglês do 5º ao 12º anos durante 30 anos, até 2013, ano em que dei a minha autoria por finalizada.  Para alem disso, fui professora efectiva da Escola Carolina Michaelis e ainda dei aulas de Inglês na Escola Profissional de Música, que fechou cinco anos depois de eu sair e no ISAI.

Nunca estive parada, adorava dar aulas, preparava-as à minha maneira com muita improvisação, com uso das tecnologias do tempo, criatividade, experimentação constante e até risco. Orientei mais de 50 professores estagiários, que se lembrarão de mim, espero eu, ao dar as suas aulas.

Não tenho vaidade nisso. Fui sempre assim. Muito teimosa e persistente no que me interessava.

Infelizmente, acabei por ter de pedir reforma antecipada por razões familiares ( doença da minha filha) e deixei as aulas após 37 anos de ensino, continuando a trabalhar em projectos escolares.

Nunca "boiei" na vida. Também nunca me afundei, creio eu.

Mas agora, desde que o M. faleceu,  só me apetece boiar,  recordar o passado, deitar-me a olhar para as estrelas, contemplar da janela as árvores a agitar-se com a brisa, ver as ondas desdobrando-se em rolos de espuma na Foz e ouvir música minimalista.

Deixo-vos aqui um vídeo espectacular. A música do compositor islandês Olafur Arnald é um extracto do soundtrack da série Broadchurch da BBC, uma das séries mais brilhantes que vi ultimamente.

Só assim me consigo aguentar ( mal) à tona.





quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Floating

Here I am
Floating in emerald sea
Keep me dancing
Keep me as still as can be
And I try to keep the balance right
And I try but it feels like wasted time

But these heavy hands
They're pulling me down on my chest
Latching on, coloring all of my flesh
Quietly, you hover over me
And I fight but it feels like wasted time

Say goodnight
I know that I'm swallowed in sea
We collide, colors that devour me
Just say goodnight
I'm already down
I cry
Already down

Already down
And I cry
Already down

And I try
And I try
But it feels like wasted




terça-feira, 8 de agosto de 2017



Eu não Quero o Presente, Quero a Realidade

Vive, dizes, no presente, 
Vive só no presente. 

Mas eu não quero o presente, quero a realidade; 
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede. 
O que é o presente? 
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro. 
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem. 
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente. 

Não quero incluir o tempo no meu esquema. 
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas 
                         como cousas. 

Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes. 

Eu nem por reais as devia tratar. 
Eu não as devia tratar por nada. 

Eu devia vê-las, apenas vê-las; 
Vê-las até não poder pensar nelas, 
Vê-las sem tempo, nem espaço, 
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê. 
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 

   Música do outro mundo. De Olafur Arnalds.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

A Foz, espaço zen
















Ir à Foz todos os dias.  Poucas vezes tenho feito esta rotina com regularidade mas, este ano, por razões de saúde ( mental) resolvi levá-la a cabo.

Vou todos os dias, quer faça chuva ( raras vezes) quer sol, quer esteja nublado, quer  esteja nevoeiro ( hoje cerrado até às 3, depois sol límpido), quer me levante cedo ou tarde., quer esteja deprimida, quer bem disposta...saio já munida do que preciso: óculos de sol, creme, Huawei, garrafa de água e auriculares.

Passo três a quatro horas junto ao mar e só não tomo banho porque não gosto da areia movediça que se escoa debaixo dos pés. Também já não consigo estar muito tempo deitada numa toalha ou sentada nas rochas,  o que faço na Luz com frequência.

Sento-me nas maravilhosas deck-chairs da esplanada dos Ingleses, com almofadas confortáveis, junto uma mesinha para poder almoçar, estendo as pernas e pouso as sapatilhas na rede em frente. Ali estou horas infindas, a ouvir música ( hoje os Alan Parson's Project, uma das bandas que mais ouvia nos anos 90) , a olhar para o mar, a tirar fotos caricatas, a mandá-las aos meus filhos com comentários jocosos e vice-versa.

 Reflicto muito e venho de lá completamente restaurada, como se tivesse estado num spa a cuidar de mim. Gasto 10 euros a almoçar ( hoje um prego no prato), não lancho nem bebo cafés. Só água, muita água fresquinha.


O que me leva a cumprir esta rotina, não é a minha paixão pelo mar, que a tenho desde que me conheço. É o ambiente sensacional daquela esplanada, a alegria da praia, as lojinhas da Rua Senhora da Luz, a pontualidade do autocarro 204.

É tudo tranquilo, sem sufoco, sem stress, sem discussões. Não se ouve um choro de criança ( é incrível, mas é verdade), um ladrar de cães, apenas os pios das gaivotas, as vozes discretas dos turistas, as rabujices veladas dos velhos, os risos dos jovens na areia, as brincadeiras junto à orla do mar, que hoje, rugia bem forte.

Naqueles momentos esqueço-me de mim quase. E esqueço-me dos meus desgostos e solidão. Fico feliz por ver tanta gente contente, despreocupada, sem problemas aparentes.











O M. dizia que eu ignorava os problemas, que lhes fugia sempre e que encarava o futuro dum modo demasiado optimista, idealista, como se nunca previsse vir a ter dramas. E se os tive! Mais do que esperava certamente quando era jovem e me apaixonei por ele. Ele receava a minha falta de preparação para a vida. Eu confiava na minha capacidade de dar a volta por cima.  Nem tudo deu certo, mas sobrevivi.

Neste momento ando na fase de projectar as férias e isso entusiasma-me. Vou à Escócia no fim de Setembro, a Edimburgo e depois a Leeds. Já há muito que queria conhecer essa cidade e resolvi fazê-lo quando a minha filha voltar depois das férias. Vamos de comboio de Stansted para Edimburgo, são umas 5.30, mas percorre-se todo o East Yorkshire que é lindo de morrer.

Na Escócia quero ir ao Loch Lomond um dos lagos mais bonitos do país. E ver Edimburgo bem. Já há muito que não vou a outra cidade britânica que não Leeds.

Hoje marquei hotel, ontem aviões, os comboios ficam para depois. Não é barato, mas são férias...

Happiness is looking forward to...o meu velho lema que já voltou.



Oiçam esta maravilha e entrem em modo Zen... :)








quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Time - Ao M.


                                                  

Time
Flowing like a river
Time
Beckoning me
Who knows when we shall meet again
If ever
But time
Keeps flowing like a river
To the sea

Goodbye my love
Maybe for forever
Goodbye my love
The tide waits for me
Who knows when we shall meet again
If ever
But time
Keeps flowing like a river (on and on)
To the sea
To the sea

Till it's gone forever
Gone forever
Gone forevermore

Goodbye my friend
Maybe for forever
Goodbye my friend
The stars wait for me
Who knows where we shall meet again
If ever
But time
Keeps flowing like a river (on and on)
To the sea
To the sea

Till it's gone forever
Gone forever
Gone forevermore

Forevermore

Forevermore

Forevermore

Forevermore


The Alan Parson's Project



 
                                            

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Amor

É difícil falar de Amor.


Mas mais difícil é viver um grande Amor.
E ainda mais difícil é analisar-se o que foi um grande Amor, passados 52 anos de duas vidas, uma delas já finda.



Não tenho falado quase de outra coisa nos últimos tempos , aqui no blogue, a alguns dos meus amigos e sobretudo no meu diário, onde todos os dias escrevo.

Durante anos escrevi cartas de amor. Não as sei qualificar, mas basta ler algumas linhas destas cartas para se perceber que quem escreve está apaixonado. Mais ou menos, mas indubitavelmente apaixonado. Há palavras sagradas como : Querida, meu amor, Minha..., e até petit noms que quem ama inventa...e expressões que nos ferem agora ainda mais: Nunca me deixes,  Don't forget me, Tu és Unique, Confia em mim, Reza por mim, Je t'aime tendement, I miss you, Espera por mim.


O amor acaba? Há quem diga que sim e até quem acrescente que o ódio, o desprezo, o desdém dão lugar ao carinho, à afeição ou à ternura. Amor e ódio são dois polos opostos que às vezes se confundem, tal é a violência dos sentimentos que podem unir e desunir duas pessoas. Nunca conheci o ódio em relação ao M. Nem sei se ele o terá conhecido em relação a mim.

Creio que o nosso foi um grande Amor. Com altos e baixos como todos. Com altos muito altos e baixos muito baixos, pois que nenhum de nós era como diria a Clarice Lispector "de metades".
O nosso namoro não conhecia meio-termos, muitas vezes o escrevemos um ao outro.

Como diz Adamo na sua canção : ' cést pas l'enfer, c'ést pas le Paradis'. Era uma alternância de encontros e desencontros. Que não o destruíram.

Mas se formos dar ouvidos a um outro grande cantor francês, Charles Aznavour, que cantou as mais belas canções de amor que conheci na minha juventude:

L'amour c'est comme un jour 
Ça s'en va, ça s'en va l'amour 
C'est comme un jour de soleil en ripaille 
Et de lune en chamaille 
Et de pluie en bataille 
L'amour c'est comme un jour 
Ça s'en va, ça s'en va l'amour 

C'est comme un jour d'un infini sourire 
Une infinie tendresse 
Une infinie caresse 
L'amour c'est comme un jour 
Ça s'en va mon amour


Na realidade, o Amor é um estado de alma, tão variável quanto as pessoas que sentem. Não há hipótese de catalogar, definir, descrever...

Shakespeare escreveu alguns sonetos sobre o amor. Este é muito específico e detalhado. Vai aqui uma tradução para quem não compreende bem a língua inglesa, dum blogue dedicado a literatura inglesa.

Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments: love is not love
Which alters and it alteration finds
Or bends with the remover to remove.
O, no! It is an ever-fixed mark,
That looks on tempests and is never shaken,
It is the star to every wandering bark,
Whose whort's unknown, although his heith be
/taken;
Love's not Time's fool, though rosy lips and
/cheeks
Within his bending sickle's compass come;
Love alters not withi his brief hours and weeks
But bears it out even to the edge os doom;
If this be error, and upon me proved,
I never writ, nor no man ever loved.


Soneto 116

Não tenha eu restrições ao casamento
De almas sinceras, pois não é amor
O amor que muda ao sabor do momento,
Ou se move e remove em desamor.
Oh, não, o amor é marca mais constante
Que enfrenta a tempestade e não balança,
É a estrela-guia dos barcos errantes,
Cujo valor lá no alto não se alcança.
O amor não é o bufão do Tempo, embora
Sua foice vá ceifando a face a fundo.
O amor não muda com o passar das horas,
Mas se sustenta até o final do mundo.
Se é engano meu, e assim provado for,
Nunca escrevi, ninguém jamais amou.


Fica aqui, ainda, e com uma nota positiva, uma canção de amor que ouvi muito já depois de casada nos anos 80: A TOI, de Joe Dassin.

Diz tudo sobre o nosso Amor.


Por coincidência ou não escrevi, hoje, este texto ao som do bailado Romeu e Julieta de Prokofiev , numa realização lindíssima da Opera de Marselha-transmitida pelo Mezzo.

 Maior história de amor e de equívocos nunca foi escrita.

domingo, 30 de julho de 2017

Saudade


SAUDADE


Eu acredito que um simples
"I miss you"
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.

Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.

E é por isso que eu tenho mais saudades...
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência...



                 CLARICE LINSPECTOR


sábado, 29 de julho de 2017

C'est ma vie - ao M.


Quando era jovem ajudava o meu Pai a montar filmes que ele fazia das suas viagens. Passava horas com uma maquineta a cortar partes que tinham ficado menos boas e a colar de novo de modo a produzir um grande filme que o meu Pai mostrava orgulhosamente aos amigos na sala, onde montava um ecran grande. Até tínhamos um filme da nossa infância a que nós chamávamos o : "Nós em pequenas" e que os meus filhos chegaram a ver. Depois desapareceu, assim como a máquina, na voragem das partilhas.

Esta semana montei o "filme da minha vida"... ou o puzzle da minha existência, como queiram.

Agora escrevo ao som do Concerto nº1 de Brahms, uma das peças mais plangentes e apaixonantes que conheço e estou a ouvir no Mezzo.

Fez no dia 25 seis meses que perdi o Amor da minha vida.

Praticamente sozinha no Porto nesta semana, acabei de reler e arrumar todas as cartas que o M. e eu escrevemos um ao outro desde 65 até 71. As caixas são lindas e de cores alegres, como muitos dos momentos que partilhámos juntos. Juntei postais, recordações, fotos e souvenirs, poemas, etc.

Não fiquei arrependida de ter feito tudo isto com o coração e com a cabeça, racionalizando todas as nossas palavras, interpretando-as à luz dos eventos que se iam sucedendo nas nossas vidas, cada vez mais separadas. Chorei copiosamente, ri-me com gosto, mas sobretudo senti que valeu a pena.

Durante o nosso namoro, que começou aos 19 anos, tínhamos vidas, não "uma vida" em comum.
Em comum, tínhamos paixão, sonho, desejo, atracção, química, ternura, anseios, generosidade e também, alguma frustração ou desilusão.
O que tínhamos em comum era infinitamente mais positivo do que o que nos separava. Infelizmente não bastava. E quando se diz que não casamos com uma pessoa , mas com a sua família, isso é bem verdade. Muito do que nos separava provinha do exterior, dos condicionalismos impostos pela família do M., pela distância e pela falta de posses de ambos.


foto tirada em 1995 na Tunísia, onde fomos muito felizes

Cada um dos períodos do nosso namoro se define bem como a temperatura num termómetro, com mais ou menos calor, com mais ou menos coração, com mais ou menos realismo, com mais ou menos desespero. Tudo foi analisado por nós até ao mais ínfimo pormenor. Cada um de nós escrevia sobre os nossos encontros, auto-hetero-criticando-se. Nem sempre concordávamos com a análise feita. Mas tentávamos melhorar. Também discutíamos as nossas posições religiosas e nunca deixámos de nos preocupar com o sucesso do outro. A expressão "reza por mim" é quase tão comum como o "Amo-te" ou o "Wait for me".

Hoje pergunto-me o que teria acontecido se tivéssemos cortado de vez nos momentos em que o desejámos sem o conseguir. E o que teria acontecido se não nos tivéssemos reencontrado em 1973 após dois anos de travessia do deserto no que se relaciona à nossa relação?

O mais caricato foi termos estado quase um ano na mesma cidade - Lisboa - sem eu saber que o M. lá estava. Vivíamos a dois passos, mas ele não me procurou. Sempre soube que eu fizera a tese e o estágio e era professora ali, mas não queria prender-me sem acabar a tropa e definir o seu futuro na magistratura. Foi o acaso que nos fez reencontrar... :)

A minha vida dava um filme....se dava. Maior do que os do meu Pai.
Lidas todas estas cartas, o filme da nossa vida desenrola-se perfeitamente claro e transparente. No entanto, muitas vezes me interrogo sobre mim própria e as minhas decisões. Também me arrependo de muitas atitudes que tomei. Duma maneira geral, porém, sinto que fui uma Mulher em momentos cruciais,  vivi plenamente e realizei quase tudo o que quis. Excepto o Amor, que ficou inacabado. Naquele quarto de hospital, branco, gelado e impessoal, terminou.

Fotografei 180 páginas inteiras de cartas que guardei aqui no Picasa. É comovente lê-las de vez em quando. Mas não consigo branquear tudo o que se passou depois nos 30 anos em que vivemos juntos. Se nos amávamos - e não duvido disso nem por um segundo -,  também permitimos que a erosão lapidasse os alicerces daquele que tinha sido um grande Amor. Por isso, tenho escrito um diário que já tem 170 páginas com considerações sobre o que vivi e o que hoje vivo e sinto.


Foi nisto tudo que pensei hoje na Foz onde andei durante 4 horas - cerca de 3km - olhando o mar, observando as pessoas felizes que aproveitavam a tarde sem vento e cheia de sol, que convidava a banhos.



A Foz é uma mistura espectacular de pessoas, sem distinção de meio social, cor, raça ou posses.

A Foz é uma toalha na areia e um fato de banho, um bikini, um telemóvel, uma garrafa de água.
Todos têm o mesmo.
E todos ambicionam o mesmo: sol e mar.

Bendita cidade que tem um espaço destes ao virar da esquina.

Enquanto lá estive ouvi uma hora de canções francesas, entre as quais esta do Adamo, que ouvíamos muito na nossa juventude.

A letra tem tudo a ver com a minha vida.

C'EST MA VIE

Notre histoire a commencé 
Par quelques mots d'amour 
C'est fou ce qu'on s'aimait 
Et c'est vrai tu m'as donné 
Les plus beaux de mes jours 
Mais je te les rendais 



Je t'ai confié sans pudeur 
Les secrets de mon cœur 
De chanson en chanson 
Et mes rêves et mes je t'aime 
Le meilleur de moi-même 
Jusqu'au moindre frisson 

Ma candeur et mes vingt ans 
Avaient su t'émouvoir 
Je te couvrais de fleurs 
Mais quant à mon firmament 
J'ai vu des nuages noirs 
J'ai senti ta froideur 

Mes rires et mes larmes 
La pluie et le soleil 
C'est toi qui les régis 
Je suis sous ton charme 
Souvent tu m'émerveilles 
Mais parfois tu m'oublies 

C'est ma vie, c'est ma vie 
Je n'y peux rien 
C'est elle qui m'a choisi 
C'est ma vie 
C'est pas l'enfer, 
C'est pas l'paradis 

J'ai choisi des chaînes 
Mes amours, mes amis 
Savent que tu me tiens 
Devant toi, sur scène 
Je trouve ma patrie 
Dans tes bras, je suis bien 

Le droit d'être triste 
Quand parfois j'ai cœur gros 
Je te l'ai sacrifié 
Et devant toi j'existe 
Je gagne le gros lot 
Je me sens sublimé 



Substituamos os adjectivos masculinos pelo femininos e "chanson" por "lettres"....eis a minha VIDA.